Leitura cultural: O tempo




Tempo. Fator irremediável que rege a vida. Responsável direto pelas transições do universo. Citado tanto por estudiosos científicos, filosóficos e religiosos como por profetas, escritores, poetas, músicos. O tempo está em tudo, em todos. Mas o que na verdade é o tempo? Qual a sua real importância para os seres, e em especial, para o homem?

As mitologias grega e romana adotaram as representações de deuses do tempo. Eram respectivamente, Cronos e Saturno. Ambos possuíam uma imagem severa e rígida. As civilizações antigas já visualizavam o tempo como algo implacável, impetuoso.

Tamanha é a importância do tempo para a humanidade que foi desenvolvida uma ciência para estudá-lo. Trata-se da cronologia, que permite o “controle” e a administração da vida e de tudo o que acontece durante ela.

Analisando a história do homem, chegaremos ao período Paleolítico, também conhecido como a Idade da Pedra Lascada, há cerca de 2,7 milhões de anos até 10.000 a.C. Nesta etapa da evolução, os homens eram nômades, tendo que se deslocar constantemente para poder caçar. Como viviam em grupos e necessitavam de êxito na caçada, a medição do tempo era fundamental para que a sobrevivência deles não fosse comprometida. Desta forma, a contagem do tempo era realizada através de marcações com gravetos e ossos, contando os dias entre as fases da lua. Isso facilitava as estratégias de caçada, pois proporcionava ao homem uma noção de quando determinado bando de animais passaria por certa região.
        
Os sumérios e os egípcios criaram os primeiros calendários, e com o passar dos anos, diversas maneiras de compreender e trabalhar o tempo foram desenvolvidas, chegando até os dias atuais, quando até mesmo o tão “fundamental” relógio, deixou de ter a mesma importância de algumas décadas atrás.

Podemos então, entender o tempo como uma ferramenta de auxílio no norteamento da vida humana. É por seu intermédio que calculamos, organizamos e mapeamos os eventos que rodeiam as nossas vidas. No entanto, não questionando a sua importância, mas sim o nível de entendimento em cada ser, o tempo é visto de igual maneira por todos? Acreditamos que não. E não poderia ser diferente.

Nascemos e somos criados, educados e culturalmente moldados de formas diferentes. Esta base nos dá uma carga única, um gene de hábitos que carregamos de forma inconsciente conosco. Este conjunto de costumes nos permite ter interpretações diferenciadas dos fatores da vida.
      
O Interacionismo Simbólico, teoria que teve origem na Escola de Chicago, no início do século XX, defendia que seres e coisas ganham sentido quando se tornam fontes de motivações, e que a realidade social em que as pessoas vivem é constituída através de símbolos. Ora, é natural na vida do ser fazer comparativos e análises em relação ao que lhe cerca. Isto posto, o Interacionismo Simbólico nos permite uma comparação e interpretação um tanto quanto interessante sobre o tempo. Afinal, quem nunca se questionou sobre ele?
        
Podemos entender que o tempo é igual para todos. O que o diferencia é a visão que temos sobre ele, a forma como o interpretamos e o aceitamos ou não. A simbologia construída em torno dos acontecimentos e das coisas nos possibilita organizar de maneira lógica o que nos é primordial. Sendo assim, entendemos o porquê do tempo ser tão importante para uns e tão esquecido por outros.
         
O mesmo homem que passou trinta e cinco anos trabalhando para sustentar a sua família, que abdicou de momentos simples para buscar a rentabilidade, conforto e o futuro dos seus entes, ao se aposentar, descobre que tem uma doença terminal. De que lhe valeram os anos de stress, má alimentação, correria desenfreada em busca da matéria? Será que este mesmo homem, tendo a oportunidade de retornar ao passado não faria tudo (ou pelo menos boa parte) diferente? Se sim, cabe outra pergunta: o que é o passado senão um espaço de tempo? Um fragmento de uma história?

O exemplo ilusório aqui exposto serve apenas para evidenciar a visão humana frente ao tempo. O Interacionismo Simbólico analisa os valores que damos as coisas. Se outrora o tempo era visto tão somente como frações de momentos matematicamente calculados e diagramados em nossas vidas, de uma hora para outra pode se tornar um bem precioso que necessita de atenção e carinho, pois a cada dia, hora, minuto e segundo, estamos deixando de existir.
     
Relacionamos agora, o tempo à existência. Eis outra situação em que o ser humano costuma não se preocupar e não se esforça em compreender. Se algo está vivo, logicamente, em um dado momento morrerá. O seu ciclo natural se extinguirá, assim como tudo o que vive no universo. Mas não é de forma raciocinada que na maior parte dos casos nós interpretamos e recebemos a morte. Muito embora esse ciclo seja imutável, por vezes deixamos de lado a análise de que o tempo é causador natural do fim. É este mesmo tempo que marca o início de uma vida. Logo, não deveria haver surpresas para o término dela, não importando por qual motivo este término se dê. Mas o que implica nessa não aceitação e até mesmo no medo da morte é a simbologia que criamos em torno do tempo.

Pensamentos do tipo “Sou muito jovem para morrer agora” ou “A sua morte era esperada devido a sua idade” representam a falta de padrão quanto à interpretação do tempo em relação à existência. Imaginamos que os idosos naturalmente podem morrer a qualquer instante. Mas não entendemos que mesmo um jovem pode ter a sua vida encerrada de uma hora para outra. O motivo desse raciocínio? A falta de entendimento de que a vida cessa, e não segue uma lógica para isso. Estamos morrendo desde que nascemos. A questão é: Quando morreremos?

O quando nada mais é do que mais um marcador de tempo, assim como o passado e a ideia do futuro. Vivemos em uma sociedade que cada vez mais corre em busca do bem-estar material e do conforto, que possivelmente sempre virá em um futuro. E é neste futuro que idealizamos uma sobra de tempo em nossas vidas. Enquanto isso, no presente, o tempo se esvai por nossos dedos, e consequentemente, vamos nos esvaziando com ele.
          
As simbologias que o tempo nos proporciona são diversas, e não raramente, passíveis de mudanças de opiniões. Estabelecemos metas e prazos para as nossas vidas. Dizemos em qual idade um jovem está apto a namorar, qual é a idade ideal para se casar e constituir família, em que época é tardio ou não para se realizar certos feitos. Todos esses exemplos são consequências do tempo na vida do ser humano. A sociedade cria um padrão onde o tempo se enquadra na vida, quando na verdade, a vida deveria se adequar ao tempo.
          
Sendo assim, adotando a teoria desenvolvida na Escola de Chicago, acreditamos que de uma forma geral, o ser humano ainda está longe de interpretar de forma aprofundada as questões que envolvem o tempo, principalmente no que diz respeito à existência do ser. Os simbolismos criados em torno daquele que com certeza é um dos mais irremediáveis fatos da vida acabam tornando as interpretações equivocadas, pois o raciocínio quase sempre é deixado de lado, dando lugar a vivências vazias.
        
Cabe ao homem descobrir a maneira ideal de se trabalhar com o tempo, assim como torná-lo uma herança cultural.


* Leitura cultural feita em dezembro de 2012 para a disciplina de Teoria da Comunicação IV, do professor André Rittes.

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