Os sete pecados não me competem
Sou uma pessoa humilde. Faço questão de sê-la. A quem me perguntar o que penso do mundo, responderei de pronto. Aguçado com o meu olhar sobre o cotidiano, numa prosa gramaticalmente bem elaborada, nem sempre muito bem embasada, mas com toda a certeza, afiada.
Sou humilde porque trabalho com
pessoas, com os fatos, com o mundo. E seria impossível eu ser diferente. A
realidade é dura. Apenas para quem sabe ouvir, discernir e retratar cada
acontecimento. Essa mescla de qualidades assina a minha carta de cidadão
exemplo.
Não possuo os pecados capitais. Dentro
do meu dia-a-dia não posso me ater à inveja. Muito embora ela exista, basta que
eu faça o melhor, e pronto! Quem acaso se importa com a inveja, desde que
esteja em destaque? Igualmente acontece com a preguiça. Jamais será minha
companheira! Estou sempre na atividade, vou atrás do que preciso. Às vezes não
preciso sair da minha mesa, mas, não quer dizer que eu não esteja trabalhando.
É que a minha capacidade é tamanha, que mesmo sem me movimentar eu consigo
mudar o mundo.
Quanto à luxúria? Esse pecado nem de
longe me cabe. A minha imagem é totalmente oposta. Mesmo existindo certo charme
misturado com glamour no que faço. Mas não passa disso. A minha postura é
séria.
A ira é algo que não me compete. Sou
neutro. E ponto. Assim como a gula. Se não for a gula pela verdade e pelo meu
lugar de direito (entenda-se, o topo), não há gula em minha pessoa!
A avareza jamais me cabe. Compartilho
tudo com todos. Aliás, não só compartilho, mas crio, produzo, explano ao mundo
o meu trabalho, “a verdade” que sempre encontro.
Será que chequei direito? Ainda me
falta algum pecado a ser rebatido? Ah, sim! Esqueci de um (mas tudo bem, sou
bom em escrever, não em calcular). A soberba! Bom, é desnecessário falar sobre
ela. Sou dotado de uma imparcialidade fria, calculista. Não apareço mais do que
o meu trabalho. A minha imagem é natural ao que faço. Ela brilha apenas o
necessário. O que deve de fato se sobressair é a qualidade indubitável do meu
esforço. O fruto da minha experiência. Enfim, a soberba não me guia tampouco me
é porto-seguro em meu ofício. Logo a mim? Que vejo e escrevo, retrato e formo
opiniões? Que mesmo quando erro (fato raro e totalmente compreensível) disfarço ou simplesmente
oculto, fazendo com que tudo fique bem? Logo a mim que levo a
verdade ao seu lar? Não... Eu sou humilde demais para isso.
Assinado: O Jornalista
* Crônica para a disciplina de Estudos da Linguagem.

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