Um pensamento qualquer sobre a insatisfação profissional




A busca pela felicidade é uma das grandes causas da humanidade. Seja afetiva, social, familiar ou profissionalmente, o ser procura constantemente a satisfação. Não deixando de lado os demais fatores que completam a formação do indivíduo, talvez, o campo profissional seja um dos que mais cause insatisfação pessoal.

Somos culturalmente moldados para entrar no mercado de trabalho em busca de um posto que nos dará, acima de tudo, conforto, e, um poderio econômico capaz de nos impulsionar a um status (que dentro de um padrão estabelecido pela sociedade seja considerado alto).

Não raro, encontramos pais que carregam em suas bagagens de pretensões futuras frases do tipo: “o meu filho será médico (advogado, juiz)” e tantas outras profissões consideradas pela massa como pertencentes a um patamar mais elevado do que o dos demais ofícios. Dessa forma, é natural imaginar que o que esses pais realmente querem para os seus tutelados é uma condição financeira aliada ao status, afinal, qual pai não almeja que o seu filho seja “importante”? Que seja dotado desses valores tão cultuados pela sociedade moderna?

O resultado dessa educação imposta pode muitas vezes ser o início de um problema que não é encontrado na infância. Trata-se de um impasse que em muitos casos aparece na formação acadêmica do jovem, mais naturalmente em sua graduação: é o conflito entre os sonhos dos pais e as aspirações dos filhos. Oras, espera-se ansiosamente pelo diploma de engenharia que preencherá o seu local destinado na parede da sala. O filho, por sua vez, opta por Publicidade e Propaganda, Jornalismo, Pedagogia, ou outros segmentos que não estão no hall da fama dos pais. Se esse embate de interesses é vencido pelos progenitores, temos então, um possível caso de frustração profissional pré-datado.

Outra situação que fatidicamente ocasionará esse imbróglio está na dúvida pessoal, aquela que independentemente dos pais acompanha o jovem. Ao não saber qual caminho trilhar, por vezes, a escolha vem a esmo, junto com os conselhos de amigos e/ou com o modismo. Vale lembrar da época da Computação, da Logística, e, mais recentemente, do Petróleo e Gás, fora tantas outras graduações que foram a bola da vez no mercado de trabalho.

É importante frisar que não há deméritos em nenhuma das vertentes profissionais aqui citadas, muito pelo contrário, são de excelentes formações e de grande importância para o progresso do país. No entanto, quando não há fundamentos pessoais para que se adentre na área, tão logo uma dúvida comum surgirá: “por qual razão estou nesse emprego?”.

Por mais que o cargo ocupado seja de uma remuneração considerável, e até invejável, ainda que o renome – fruto dessa profissão – cause uma impressão de importância frente à sociedade, em dado momento, se o profissional não estiver verdadeiramente satisfeito, não haverá fator econômico ou social que servirá como âncora para mantê-lo na função.

A dúvida surge. O incômodo cresce. A falta de retorno pessoal passa a ser um empecilho, um agente desmotivante na vida profissional. Eis então o resultado do problema inicial, da escolha incerta reforçada pelos fatores externos.

“Escolha um trabalho que você ame e não terá que trabalhar um só dia de sua vida“. A frase de Confúcio vai contra parte do pensamento social, que ensina o jovem a se atentar para qual emprego lhe pagará mais, e não para qual ofício o tornará uma pessoa melhor.

Não somos máquinas, jamais seremos totalmente objetivos¹. A subjetividade sempre será fiel companheira da humanidade. E talvez seja melhor aceitá-la, aprendermos a trabalhar com ela, para que assim, se torne possível encontrar a satisfação pessoal. Fugir a essa essência implica em um retardo anunciado.  Uma hora ou outra será necessário resgatarmos o que nos faz bem.

Nascemos inclinados a sermos aquilo que internamente sabemos que deveremos ser. E quando não seguimos esse impulso natural, tudo ao nosso redor se modifica. Prematura ou tardiamente, a nossa essência nos cobrará. Afinal, guardadas as devidas proporções, o que seria da arquitetura nacional se acaso Oscar Niemeyer tivesse escolhido a medicina?



¹. Mescla entre as citações de um grande professor de Jornalismo e de Mino Carta, jornalista e atualmente dono da revista Carta Capital.

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