Por detrás das grades





Ele estava sem camisa, sentado e olhando sem expressão alguma para o lado de fora. Talvez estivesse relembrando o tempo em que podia observar o mundo sem ter pela frente aquelas barras de ferro que o cercava. Mas era ali que ele estava naquele momento, e sabe-se lá por quantos anos já estava naquela situação... Sabe-se lá por mais quanto tempo a sua vida seria assim. A possibilidade de morrer ali não era descartada. Nem poderia, afinal, nem mesmo o melhor advogado poderia tirá-lo daquele lugar. Era uma sentença que ele pagava por um crime que não aceitava apelação.

As visitas eram raras. Provavelmente, visitá-lo significava uma tarefa a mais, e quem hoje em dia tem tempo para tantos afazeres?

A vigilância que sofria era rígida, mas vinha com educação e respeito. O seu bom comportamento facilitava as coisas. Se não fosse assim, nada de banho de sol, nada de quaisquer regalias. Era a lei do local.

Lei... Ah, a lei... A mesma que sem perceber ele seguiu. E por seguir, foi julgado e sentenciado. E eu que sempre achei que quem seguia a lei nunca se dava mal... Hoje vejo que me equivoquei.

Quantos bons momentos ele estaria perdendo do lado de fora? Quantos parentes ele poderia visitar nas datas festivas? Quanta vida foi simplesmente deixada de lado e guardada dentro de um coração que passou a ver o mundo por detrás das grades? Mas pelo menos havia a televisão... Sim, era um presente para ele e os seus “companheiros”, todos, claro, cúmplices, culpados pelo mesmo ato.

Vendo aquela cena, dele sentado ali, pensando ou apenas vegetando, parei para analisar o rumo que a minha vida está tomando. Espero que eu nunca chegue a uma situação tão extrema. Fui andando e me lamentando por ele. Quando virei a esquina, olhei pela última vez o nome da instituição: Casa de Repouso...



* A mente humana às vezes é engraçada, viaja e pensa em diversos cenários com apenas um impulso. Desta vez, o que me bastou foi uma cena quase corriqueira, quase considerada normal. Um senhor sentado e olhando para a fora de uma casa de repouso. Essa cena foi real, o restante foi suposição, uma suposição que talvez se encaixe em diversas realidades, uma suposição que existe.

Comentários

Duran disse…
Ótima e bem escrita reflexão.

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