Aquele abraço...




Eu não me lembro exatamente qual  foi o primeiro que me marcou. Tenho a lembrança do meu pai apontando na esquina de casa ao voltar do trabalho. A corrida simples de uma criança, o pulo no colo, e o abraço apertado com sorriso de você chegou.

O motivo para essa cena quase rotineira é que no início dos anos 90 morávamos na Zona Leste paulistana. Já nessa época, eu ouvia as notícias dos pais que saíam para trabalhar, mas que jamais voltavam para casa por conta da criminalidade. Os homens que assaltavam me assustavam. O abraço que na minha imensa força de um pivete de meio metro (não cresci muito desde então) deveria ser esmagador, na verdade não passava de um afago para o meu pai. E era nesse ato que eu encontrava a forma correta de mostrar que ele era importante pra mim.

Não cresci distribuindo abraços. Eles foram se tornando escassos. O contato corporal nunca foi o meu forte para demonstrar afetividade. Um simples aceno de cabeça era o suficiente para cumprimentar. Era o ideal para não manter muita proximidade. E foi com essa visão europeia de relacionamentos que fui me moldando. Frio. Prático. Adulto.

E, por sua vez, esse tom adulto passou a me incomodar. Certa vez, não há muito, ao chegar do trabalho, um mini ser de alguns centímetros correu em minha direção no meio da rua e simplesmente gritou: “Rafa!”. Quando me dei conta, a criaturinha já estava com os dois braços em volta das minhas pernas, cabeça virada de lado, olhando sabe-se lá o quê... E com um sorriso incrivelmente lindo no rosto. Oras, não preciso dizer que qualquer pose é desfeita diante de uma cena tão simples, tão forte. Pego de surpresa, retribuí ainda sem saber como fazê-lo. Meio sem graça, sorriso de Gru, cheio de dúvidas de como agir.

Eu estava inclinado a acreditar que demonstrações de afeto não careciam de gestos deste tipo. Para mim, bastava apenas se fazer presente, ter respeito pelas pessoas que me cercavam. Estas atitudes deveriam (ao meu modo de ver) ser o suficiente para mostrar o quanto me importava com as pessoas. Mas descobri que não necessariamente as coisas precisavam ser assim.

O abraço tem o poder absurdo de causar bem. Segundo pesquisas, ele libera ocitocina, substância ligada à sensação de segurança, conforto, tranquilidade; e conhecida ainda como hormônio do amor. Particularmente, nunca me atentei para o fator científico dos efeitos ligados aos sentimentos. Se existiam, estava ótimo.

Fiquei sabendo de uma aposentada que distribui abraços na Cracolândia. Segundo ela, é uma terapia que visa devolver a cidadania aos moradores do local. Dona Tina, como a chamam, é um ser iluminado que faz do abraço importante ferramenta pela “re-humanização”.

Descobrir em um abraço um verdadeiro porto-seguro é uma das sensações mais incríveis que se possa experimentar. O abraço liberta as amarras da frieza cotidiana. Quando sincero, ele acalenta, protege, dá vida.

Como disse sabiamente Quintana: “Meu Deus! Como é engraçado! Eu nunca tinha reparado como é curioso um laço... Uma fita dando voltas. Enrosca-se, mas não se embola, vira, revira, circula e pronto: está dado o laço. É assim que é o abraço: coração com coração, tudo isso cercado de braços”.

Receio não estar pronto para ser um doador profissional de abraços como a Dona Tina. Mas, quem sabe, não me assemelho ao pequeno ser que me abraçou; ou ainda, ao Rafael de infância, que, desconhecendo os chatos padrões de uma vida adulta, corria para o seu pai preocupado em apenas demonstrar que havia carinho gratuito a ser compartilhado.

Que haja mais abraços verdadeiros e confortáveis em nossos dias.



Abraços a todos! Em especial, àquela que me devolveu ao mundo com um simples abraço.

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