A Ruth Manus estava certa




Dia desses, a minha noiva me mandou um texto. Entre as dezenas de informações que trocamos diariamente, sempre há aquela que mais nos chama a atenção. E foi isso o que aconteceu na ocasião. ‘Quem precisa morrer para você rever a sua vida?’, escrito por Ruth Manus, falava sobre o cotidiano de todos nós. De forma simples e objetiva, a autora descreveu as infantilidades e mesquinharias que nos fazem, cada vez mais, nos afastarmos de quem nos cerca. 

Como o título já diz, o assunto tocava num dos pontos mais complexos para a humanidade: a morte. Mais precisamente, a perda de quem amamos, ou simplesmente simpatizamos, mas que por razões diversas e adversas acabamos por isolar do nosso convívio.

Ao passo que lia cada linha, um filme passava em minha mente. Comecei a recobrar o que eu estava fazendo da minha vida. “Quem eram os meus desafetos?”. “Por qual razão não nos falávamos mais?”. “O que eu poderia fazer para aparar as arestas e acertar as coisas?”. “Eu queria mesmo fazer isso?”.

Essas e outras indagações foram me preenchendo, ao passo que permiti que todas (ou boa parte) das minhas mágoas fossem se dissipando. Foi um dia de pensamento firme voltado à mudança. Eu queria mudar. Mesmo que pouco, creio até que mudei.

Mandei mensagem para uma amiga com quem não falava há dias por conta de um atrito infantil e mal resolvido. Fui esperançoso de que ela assinalasse positivamente para uma conversa. E foi o que aconteceu. Senti que, ao término da reconciliação, um caminhão de tristeza havia saído das minhas costas. Estava aliviado.

Passei a repensar na minha relação com as pessoas. E se fosse a última vez que eu visse uma delas? E foi. Não com um desafeto. Não com alguém que estava distante. Mas na minha vida corrida, dizer um simples “bom dia”, por incrível que possa parecer, foi a minha última interação com alguém que eu gostava muito. Era pra ser uma saudação. Foi um adeus sem conhecimento, sem direito de ser adeus. Foi a Deus, e mais nada.

Lágrimas derramadas. Novamente me pus a pensar o que estava fazendo da minha vida. O texto de Ruth Manus foi brilhante. Quem devemos perder para repensar a nossa vida? Homenagens in memorian não servem para quem se foi. Apenas são ouvidas e lidas por quem ficou.

Talvez eu sorria mais daqui em diante. Talvez mande mais sms’s, whats e inbox com dizeres como “Bom dia! E aí, como está a vida?”. Talvez eu diga às pessoas que amo, que eu as amo. Que sinto saudade e que me finjo de forte, pois a vida corrida, infelizmente, me implica a ficar distante daqueles que preenchem o meu coração. Talvez, quem sabe, eu não faça nada disso. Não mude. Não tente. Mas como prega um ditado popular: “se não for pelo amor, vai pela dor”.

A única certeza que me sobra é de que devo mudar. Afinal, o tempo não se recupera, e já aprendi que ninguém precisa morrer para que eu reveja a minha vida.


Comentários

Anônimo disse…
Uau! Maravilhoso <3
Eu estava procurando cronistas bons, não fantásticos
Rafael Correia disse…
Obrigado pela atenção. E que bom que gostou.

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